Ou ficar a Pátria livre, Ou morrer pelo Brasil. Esse era o hino de muitos brasileiros na década de 1960 e em toda a ditadura militar. Uma época de muitas invenções, em que a tecnologia avançava rapidamente, na qual o respeito entre as pessoas é até hoje relembrado por muitos com saudades, e o patriotismo falava mais alto que o amor à própria vida. Foi em nome do Brasil e dos brasileiros que muitas pessoas foram torturadas, mortas e deportadas. Um amor baseado no respeito por uma sociedade que ajudou a dar o poder de decisão a pessoas ambiciosas, autoritárias e rigorosas.
É uma época lembrada até hoje por quem a presenciou que apesar do respeito das pessoas era necessário, por questões de sobrevivência, desconfiar de todas. Uma década mãe de uma geração determinada, que usava de todos os artifícios para mostrar seus pensamentos e se opor ao governo, uma geração que via os brasileiros como irmãos. “Me emociona e me faz chorar, acho que nunca mais vou vivenciar tudo o que vi, senti, presenciei e muitas vezes fugi da polícia para não ser presa, por causa de política. Jamais vou esquecer aquele tempo. Nossa luta foi a mais brilhante de todos os tempos, se enfrentava polícia, tanques entre outros…..Dá para escrever um livro”, relata a advogada Aniz Teresinha Tosa.
O mundo fervia, o governo repreendia, perseguia e usava da força para se impor. Mesmo assim os jovens com suas roupas coladas, seus cabelos compridos, sua aversão ao normal preestabelecido debochavam das regras do governo para fazer o que acreditavam que era necessário ser feito. Eles lutavam contra a hipocrisia de uma sociedade moralista e conservadora que tecnologia nenhuma poderia conter. Por toda a parte, as autoridades viram-se desafiadas: em casa, na escola, nas igrejas, nas ruas e nos palácios. O policial aposentado, Antenor Schineider, conta que eles não tinham liberdade nenhuma se ocorresse alguma manifestação eles eram chamados e obrigados a comparecer. As autoridades tentavam conter os manifestantes de todo modo, mas em vez de desistir eram nas repreensões que os estudantes ganhavam mais força.
Em Chapecó os estudantes realizavam manifestações nas escolas, trancavam os corredores impedindo a passagem de pessoas. Essa era a forma de protesto no oeste de Santa Catarina, porém suas manifestações eram sempre vigiadas por policiais chamados pela própria diretora da escola. Schineider conta que as diretoras eram obrigadas a pedir ajuda policial. Ele também relata que, em Chapecó, os estudantes podiam se manifestar à vontade desde que não impedissem o direito de ir e vir das demais pessoas. Schineider diz que nunca agrediu, nunca presenciou e não soube também se algum estudante foi agredido por participar de manifestações aqui em Chapecó. Mas segundo ele, muitos estudantes acusaram policiais de maus tratos.
Todo o período da ditadura militar foi marcado pelo caos, medo e repreensões aos estudantes, que começaram um dia após o golpe militar em 1964 quando o prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi incendiado por militares de direita. Esse seria só um aviso de que nos anos seguintes a situação pioraria. E assim ocorreu em novembro de 1964, quando uma lei que proibia qualquer manifestação ou propaganda de caráter político partidário e definia a regulamentação das entidades foi criada, para sufocar de vez a ação dos estudantes. Tosa, conta que durante o período em que esteve na faculdade, sofreu várias repreensões por estar envolvida com política e por falar sobre a mesma na faculdade. Porém os estudantes sempre achavam uma forma de contornar a situação e expor suas idéias, “Eu fui expulsa da faculdade por causa de política. Felizmente, havia um professor que era fundador da universidade e conhecia muito bem o meu pai, que conseguiu após mais ou menos uns 20 dias contornar a minha situação e eu consegui voltar a freqüentar as aulas, sob vigilância constante, isto é: não podia abrir a boca sobre política, caso o fizesse seria expulsa. Como eu era pobre e não tinha se quer outra alternativa para estudar tive que suportar por longo período dentro da faculdade sem falar em política, mas mesmo assim nós fazíamos panfletos, jornaizinhos e distribuíamos a noite sem ninguém ver. Mas quando chegava nas mãos dos manda chuvas, logo saberiam que era o meu grupo que estava por trás e assim foi até o final de minha faculdade, em 1981”. Esta não foi a única repreensão sofrida por Tosa, ela se formou em 1981, mas não pode participar da formatura e só pode retirar o diploma em 1985, porque estava fichada no, Departamento de Ordem e Política Social (DOPS).
Eram muitas as bandeiras dos estudantes, mas a principal delas era a oposição a Ditadura Militar. Schineider acredita que muitos estudantes lutavam sem saber pelo que estavam lutando, apenas defendiam os interesses dos advogados. Já Tosa, afirma que não, “Acho que as maiorias dos estudantes sabiam bem o que estavam fazendo e por que. Talvez, hoje, é que aconteça isso”.
A época em que não se tinha liberdade de expressão passou, e junto com ela se foi a garra e os ideais de toda um geração. E talvez o maior medo dos estudantes concretizou-se: o medo que as escolas se tornassem “fábricas de idiotas”, com alunos que aceitam quase tudo “numa boa”. Os movimentos estudantis estão quase vazios, são poucos os estudantes que arriscam a dar a “cara para bater”. Tosa afirma que os movimentos estudantis atuais são atuantes, mas muito limitados aos grupos e aos interesses que estão por trás. “Na minha época era diferente, a gente fazia movimentos por ideais, puros”, ressalta.
São visões de pessoas que viveram na mesma época, mas cada uma estava de um lado. E apesar de serem duas visões diferentes, ambas concordam com que a época foi importante para o Brasil ser o que é hoje, que tudo tem o seu lado bom e ruim, e que tudo precisa ser dosado.
“Os policias fizeram muitas coisas erradas perante a lei de Deus, mas era necessário. Eles eram obrigados a fazer certas coisas pra manter a ordem e o progresso. Onde não há ordem não há progresso”, ressalta Schineider.
“Acredito que tudo tem seu lado bom e ruim. De um lado não existia tanta violência como hoje, a não ser por parte do governo. Hoje a violência está em toda a parte, inclusive somos prisioneiros e os bandidos estão às soltas. È difícil mudar este quadro que se instaurou no país. Não adianta termos um Regime Democrático. Se a democracia serve apenas para alguns e a maioria fica sempre esquecida. Aliás, o capitalismo é bom, mas sem exageros, como qualquer outro regime. Democracia com responsabilidade é a solução”afirma Tosa.